segunda-feira, 9 de março de 2009

Também temos culpa pela miséria do País


Há coisas que devemos sempre repetir. Abordar, mesmo que nos pareça muito familiar. No nosso Brasil, costumamos falar da pobreza da qual somos vítimas e a qual preferimos ignorar a origem. Uma pobreza, por sinal, latente em um país rico, que gera outras diversidades de males.


O Brasil é um país rico, ninguém duvida, basta vermos a sua biodiversidade, a extensão territorial, a gigantesca população, a capacidade de geração de energia e ainda o poder de produção de alimentos. Portanto, não se pode negar, o fausto é realidade. Mas também a miséria o é. Lado a lado, esta contradição marca a vida do povo brasileiro. Em parte, esta miséria - ou pobreza, para sermos brandos -, ao lado do fausto, é de nossa responsabilidade.


Comumente vemos, nos meios de comunicação, notícias em que, motivados pela queda de preço de determinado produto e a falta de apoio do governo, empresários se utilizarem de métodos nada ortodoxos para protestar. Vi, certa vez, não me recordo quando, uma dessas notícias na televisão, que mostrava homens lançando pintinhos nas chamas, pois o preço do frango não compensava sequer a alimentação dos bichinhos. Aquilo me marcou. Por que, em vez de fazer um ato cruel como aquele, não doavam às famílias carentes do campo, ou às pessoas das periferias? , pensei. Infelizmente, aqueles pintinhos, futuros frangos, que poderiam alimentar bocas famintas, eram fruto da propriedade privada, tão defendida em nosso país. Daí ações daquele tipo.


Outra vez, não me recordo quando, homens derramavam leite sobre uma larga avenida para protestar contra a baixa dos preços do produto. Foi o que eu vi. Perguntava-me: por que não fazer o protesto doando o leite para as escolas, creches e abrigos de idosos? Mas aquilo era um bem privado, logo o seu dono poderia dispor do produto da forma que achasse conveniente. Afinal, em um país capitalista e democrático, as pessoas tem liberdade para tudo, sem pensar no outro.


Não farei uso de nenhuma citação. Não recorrerei às palavras de um pesquisador americano ou europeu com Phd, ou da autoridade de um catedrático de uma universidade qualquer para mostrar outro exemplo no qual o fausto e miséria no Brasil são coisas que andam lado a lado, pois o fato a ser relatado eu vivenciei. Certa vez, em uma empresa na qual trabalhava, atendendo a um caminhoneiro, fiquei sabendo que a carga da carreta, de 30 ton.,seria destinada à alimentação de animais. Intrigados, eu e um amigo perguntamos o motivo de se destinar as batatinhas inglesas (esta era a carga) para consumo do gado e não de seres humanos. E com toda ousadia, propusemos que o produto fosse doado a orfanatos, abrigos ou creches. Primeiro o motorista nos informou que os consumidores não utilizavam aquelas batatas, pois eram grandes e estavam fora do padrão para consumo (Para mim, batatas são batatas, todas são iguais, pensei!); segundo, nos respondeu acerca da impossibilidade da doação, pois o dono da carga era um empresário, e pensava como tal. Desnecessário aqui refletir sobre isto...


Ao fim da conversa, o rapaz nos cedeu uma saca de 60 quilos daquelas batatas grandes e rugosas. E lá se foi o caminhão, com suas 30 toneladas de carga destinada à alimentação dos animais. Nenhuma concessão às pessoas pobres. Às creches e escolas. Nenhuma doação a um asilo. Afinal, aquele bem não era social, era apenas mais outro, privado, e sendo desta natureza, seu dono poderia se dispor da forma que quisesse...


E o que fizemos com a nossa parte, com os 60 quilos da batatinha inglesa? Doamos, uma vez que demos aquela bela ideia ao caminhoneiro? Não. Assim como o agroempresário, fomos ingratos - apenas dividimos o seu conteúdo e nos abastecemos durante um mês. Escolas, creches e pessoas de comunidades carentes não ficaram sequer com uma batatinha ou experimentaram o sabor do purê. Afinal, como os outros, éramos (e somos) frutos de uma sociedade onde a individualidade tem forte prerrogativa.


Mas como precisamos de um bode expiatório, culpamos os políticos. Eles são os causadores de todos os males. De todas as nossas desgraças. Não poupamos sequer o técnico da seleção brasileira. A verdade é que somos incapazes de enxergar a manutenção do status quo da sociedade a partir de nós: desde o simples vendedor ao empresário. Todos nós contribuímos para sustentar uma nação onde o fausto e miséria andam de mãos dadas. Mas não admitimos...


É preferível (e mais em conta) armar um policial com um revólver 38 e construir presídios para lançar ali pessoas que nunca tiveram a oportunidade de levar à mesa um frango a ser compartilhado com familiares, um punhado de leite para amamentar um filho desnutrido ou um pires de purê para saciar a fome, do que ir a fundo aos fatos. Investigá-los poderia não somente descobrir as verdadeiras raízes das mazelas, mas desmascarar muitos oportunistas de plantão, que lucram com a fábrica da miséria social no País.

FONTE: http://www.brasilwiki.com.br/noticia.php?id_noticia=9223
Imagem: Fonte : WEB

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